
Nasci em São Paulo, no ano de 1967, e a música sempre esteve em minha vida. Minha mãe cantava no coral do colégio de freiras onde estudava quando solteira e, depois de casada, cantava junto com meu pai e meus tios em festas da família. Eles gostavam de cantar bolero, samba, música clássica e
rock. Minha mãe é muito fã de
Deep Purple e
Queen até hoje. Além disso, sou o caçula de cinco irmãos, dos quais os mais velhos curtiram o auge do
rock dos anos 70 e vi tudo isso acontecendo bem de perto. Lembro-me bem da primeira vez que eles ouviram o vinil do
Black Sabbath (
Volume 4),
Led Zeppelin (4),
Pink Floyd (
The Dark Side of the Moon),
Alice Cooper e muitos outros grandes clássicos do rock.
Em relação à cantar, desde bem pequeno eu já brincava de fazer falsetes (notas agudas) com um cachorro que minha avó Maria tinha, um pequinês chamado
Whisky. Eu ficava uivando e ele ficava me imitando, e nem imaginava o quanto esses exercícios iriam me ajudar no futuro. Canto metal desde cinco anos de idade!
Falando em infância, morei parte dela em São Bernardo do Campo, mas em 1978, aos 10 anos, eu e minha família nos mudamos para Limeira (SP), e lá comecei minha carreira de jogador de futebol num clube da cidade, a CME (Comissão Municipal de Esportes). No time, eu era conhecido como Capita, por ter vindo da capital de São Paulo. Meus irmãos logo fizeram amizade com a galera que curtia
rock na cidade, enquanto lá estava eu, correndo atrás de bola e, paralelamente, curtindo e conhecendo cada vez mais sobre o mundo da música, em especial o do
rock em suas várias vertentes. Muitas vezes, eu via meus irmãos indo para cidades vizinhas para assistir aos shows de
rock de bandas como: Patrulha do Espaço,
Made in Brazil e outras da época. Eu ficava morrendo de vontade de ir, mas não podia devido à pouca idade que tinha, tão novo que ainda colecionava figurinhas de jogadores de futebol (futebol
cards), mas ao mesmo tempo pintava camisetas com nomes de bandas de
rock. Também assistia ao programa de vídeo clipes chamado
Som Pop, e já estava bem cabeludo! A música e o futebol estavam presentes no meu dia a dia sempre.
Quatro anos depois, em 1982, voltamos a São Paulo e fomos morar na Mooca. Continuei com o sonho de ser jogador de futebol e fiz testes no Juventus, na Portuguesa e no Santos, mas nada de concreto acontecia. Certo dia, conheci um cara que morava perto da minha casa, o Barata, com o qual sempre falava de
rock. Eu achava super legal o fato dele ser vocalista de uma banda desse estilo, o jeito como ele se vestia, o cabelo comprido, e ali nasceu uma vontade na minha cabeça: ser vocalista de uma banda de
rock. Nessa época, assisti ao show de uma banda que fazia
cover dos
Beatles em um colégio perto de casa. Pirei! Dancei feito louco nesse meu primeiro show.
Em 1983, quando estava quase desistindo de jogar futebol, meu pai me arrumou um teste no Corinthians e eu passei. Naquele ano, disputei o campeonato paulista e depois fui mandado embora, uma vez que o time era horrível e ficamos quase em último lugar.
Nos anos seguintes, tentei trabalhar em outras áreas, mas nunca conseguia ficar no emprego promissor. Trabalhei na
Gledson, na
Dillard’s, com um amigo em uma empresa de dedetização, como vitrinista, como modelo, mas sempre pensando em ser jogador de futebol e, ao mesmo tempo, matando os vizinhos de tanto me ouvirem cantar um disco do
Iron Maiden chamado
Piece of Mind, e o
Slippery When Wet, do
Bon Jovi, além da banda nacional
Inox, do baterista Rolando Castelo Jr., e do vocalista Paulinho Heavy. Muitos sons e vocalistas me inspiravam, e a primeira vez que usei
drive na voz foi cantando
Wanted Dead or Alive. Ouvindo o
Ian Gillan e, principalmente, o
Bruce Dickinson, entendi e aprendi também como se fazer um
vibrato perfeito.
Em 1986, depois de muitos conflitos pessoais, voltei para a cidade de Limeira (SP), agora sozinho e morando na casa de dois grandes amigos, o Lê e a Angélica. Fui para lá determinado a conseguir algum contrato como jogador, até que consegui passar nos testes para jogar pelo Internacional de Limeira no meu último ano de Juniores. Era minha última chance de me profissionalizar, mas o time não foi bem e fui dispensado novamente. Depois disso, ainda nos últimos suspiros da carreira, consegui agendar um teste no Independente Futebol Clube, um outro time de Limeira, só que na segunda divisão do futebol profissional de São Paulo. Fui bem nos testes, mas o time não me aproveitou por estar passando por sérias dificuldades financeiras. O que eu não imaginava é que os ventos iriam me levar bem mais longe: o treinador me encaminhou para a segunda divisão do futebol de Goiás. Em 1987 estava eu morando em Catalão (GO), em uma pensão chamada Glória, que só tinha água quente quando o forno à lenha estava aceso, pois o encanamento passava por dentro dele e saia num cano no banheiro ao lado. Meu quarto era um cômodo com chão vermelhão (cimento alisado com cera vermelha por cima), sem forro, direto nas telhas, com uns pregos na parede para pendurar as roupas que eu tirava direto da mala. É... não era fácil, mas aprendi muito ali, adquiri valores de humildade e respeito que nunca mais vou me esquecer. Apesar de tudo, a comida e as pessoas de lá eram sensacionais.
Depois de quase um ano e meio me despedi da cidade, deixando mais um clube e grandes amigos para trás. Minha última parada foi em Curitiba (PR), no Atlético Paranaense, porque meu pai tinha um contato lá. Sempre cabeludo e ouvindo o som de bandas como
Lynyrd Skynyrd,
Bad Company e
Thin Lizzy, fiz os testes e quase consegui entrar, mas a chegada do treinador Nelsinho Baptista acabou com todas as minhas chances, já que o mesmo iria trazer jogadores que ele já conhecia. Resultado: depois de três meses, mais um golpe, mais uma dispensa. Aquilo já era o fim e, logo depois, fui obrigado a pendurar as chuteiras, não sabia mais o que fazer e a quem pedir ajuda, por isso voltei para casa sem saber o que fazer. Hoje vejo que tinha de ser assim, pois o futuro reservava uma história muito linda para mim dentro da música, que começo a registrar a partir de agora.
O ano de 1988 foi o que marcou o início de minha carreira como vocalista. No segundo semestre desse ano, conheci um baterista chamado Rogerinho que, por sua vez, perguntou-me se conhecia algum vocalista para entrar na banda dele. Logo pensei no meu irmão, Rogério Fernandes, que já tinha uma banda em Limeira. Então fomos ao ensaio deles e achamos demais. Ensaiavam todos os finais de semana em uma garagem na casa do batera, na Vila Monumento. Muitas vezes os bombeiros apareciam pensando que era incêndio, mas era só o
rock’n roll botando fogo na garagem! Meu irmão fez somente alguns ensaios e desencanou, ou seja, não queria mais fazer parte da banda. Resolvi, então, fazer um teste com eles e, para minha surpresa, deu certo! Assim entrei na minha primeira banda, a Cédula Falsa, com composições próprias e
covers. Eu ainda estava completamente em dúvida sobre qual caminho seguir. No entanto, depois desse teste e de uma conversa que tive com um grande amigo de Limeira, o Vado, que conhece a história do
rock como poucos, tive certeza de que cantar era realmente o que eu queria e deveria fazer. Ele me disse: “Nando, vai fundo na música cara. O
rock tá na tua alma desde criança, não tem como dar errado”. Aquelas palavras ecoam até hoje na minha cabeça sempre que alguma dúvida me assombra, então acreditei naquilo e fui em frente sem perder tempo e sabendo o que realmente eu queria a partir dali.
Depois de muitos ensaios com a Cédula Falsa, fizemos nosso primeiro show no Vitória Pub. Foi demais para mim! Na época eu trabalhava na
Dillards e subia a Rua Augusta todos os dias, a pé, e sempre passava em frente ao Vitória Pub, um dia resolvi entrar. Eu estava sem material da banda, mas consegui marcar a data na lábia. Fizemos um show muito louco, tocando músicas próprias e alguns
covers, e ainda tenho esse registro em fita cassete. A formação era a seguinte: eu no vocal, o Rogerinho na bateria, o Caio em uma guitarra, o Gorilla na outra e o Fábio no baixo. Naquela noite, lembro-me de estar cantando (mal pra cassete, por sinal!), quando vi o Andria e o Ivan Busic (ambos da banda Platina, na época) me assistindo, e pensei: “que vergonha!” Hoje em dia tenho o prazer de sempre dividir o palco com essas feras! É um dos reflexos daquela noite, na qual acabou tudo certo, o show foi muito bom, tanto que fiz vários shows lá depois com bandas diferentes. Com o cachê desse primeiro show e mais algumas economias, comprei meu primeiro microfone, um
Shure 565 usado, mas muito bom. Depois disso fizemos muitos shows em bares no bairro do Bixiga, como o Persona Bar, e alguns pelo interior. Infelizmente a banda durou apenas pouco mais de um ano por problemas de conflito de idéias entre os integrantes, entretanto novas oportunidades começavam a surgir.
Em 1990, a convite do guitarrista Fernando e de seu irmão, o baterista Calo, participei de um tributo ao
Quiet Riot. Fizemos dois shows: um no
Black Jack e outro no Aeroanta, duas casas noturnas de São Paulo na época. Tais shows foram até assistidos pelo irmão do
Randy Rhoads, o
Kelly Rhoads, que pouco tempo depois formou uma banda com os mesmos integrantes desse tributo. Infelizmente a banda não rolou devido a um assalto na saída de um estúdio que eles ensaiavam, pois levaram todo equipamento da banda numa caminhonete do próprio Fernando, o que acabou com o projeto que eles tinham.
Mais tarde, tentei uma segunda formação para a Cédula Falsa com o guitarrista Théo Godinho (ex–Jaguar) e o baterista Zé Luiz (ex–Chave do Sol), sem nenhum êxito! Nessa época eu tinha muitos problemas com a qualidade da minha voz, pois não sabia como usá-la corretamente. No entanto, já tinha o mais importante: a emoção. Sentia no fundo da minha alma tudo o que eu cantava, só que com muitas limitações técnicas e problemas de percepção. Foi aí que resolvi começar a pesquisar os vocalistas que eu admirava. Pegava alguns discos, colocava embaixo do braço e andava meia hora a pé até o estúdio do meu grande amigo Edmar Luighi, da banda Contra-Versão na época, para passar a tarde cantando. Essa banda também foi fundamental na minha formação, pois foi como um espelho para mim. Os caras eram muito organizados e tiravam as músicas de uma forma super fiel aos arranjos originais, e eu sempre assistia aos ensaios deles pensando que um dia queria ter uma banda com aquela postura profissional. Ficava lá nesse estúdio por muito tempo, cantando até altas horas da noite. Saía, literalmente, cuspindo sangue da garganta.
Nessas várias idas ao estúdio para curtir meus amigos e desenvolver a minha voz, estudei vocalistas que hoje são super importantes em minha formação vocal, como
Ian Gillan,
David Coverdale,
Dio,
Glenn Hughes,
Bruce Dickinson,
Robert Plant,
Ronnie Van Zant,
Paul Rodgers e muitos outros. Enquanto não conseguisse cantar igual ao trecho do disco que eu havia escolhido, não parava de tentar. Foi assim que descobri que tinha mais facilidade para cantar as músicas do
Deep Purple. E em 1991 estava fazendo shows em São Paulo e no interior com a
Deep Purple Cover, que eu tinha montado. Tocamos durante quatro anos consecutivos em casas como Aeroanta, Britânia,
Black Jack, Vitória Pub, Nías e outras casas no interior de São Paulo, sempre com shows de quase três horas de duração. Na época, as bandas que estavam brigando por um lugar ao sol eram o
Knockout, do meu grande amigo Ackua; Controle, do outro grande amigo Robertinho; Cavalo Vapor; Anjos da Noite;
Fire Box; A Chave; Taffo; entre outras que estavam surgindo, como
Dr. Sin e Angra.
Foi nesse período que comecei a dar minhas primeiras aulas e criei meu próprio método de canto, através de pesquisas e muita leitura sobre o assunto. No ano de 1992, ganhei o prêmio Meteoro da música como melhor vocalista do ano. Também fui convidado para cantar na banda Cavalo Vapor, substituindo Fernando Nova, que tinha ido para a banda Taffo, do excelente guitarrista Wander Taffo, também da Radio Táxi. Com a Cavalo Vapor, gravei um CD que é, até hoje, considerado por muitos o melhor CD de
hard rock gravado em português, além de ter as grandes participações do vocalista
Ian Gillan (
Deep Purple e
Black Sabbath) tocando gaita; de Andria e Ivan Busic, da banda
Dr. Sin; de Silvinha Araújo, grande cantora da jovem guarda, fazendo
backing vocals. A respeito da participação do
Ian Gillan, lembro-me que cheguei ao hotel
Macksoud Plaza à tarde e fiquei esperando o “
Silver Voice” descer para o saguão. Era a segunda vez que ele estava no nosso país, e eu já havia tido contato com ele na primeira vez que esteve no Brasil quando, inclusive, participei da gravação do clipe da música
Good Reaction e ganhei uma gaita (
Honner pro harp black and gold, afinada em C) com a qual ele tocou nos três dias de shows no Projeto SP. De repente lá vem o homem... Depois de conversarmos um pouco, e de pedir alguns autógrafos, eu disse para ele que estava gravando um CD com a mesma idade que ele tinha gravado o
Machine Head, e ainda perguntei se seria possível, de alguma maneira, ele fazer uma participação no álbum. Ele disse: “Pode ser uma gaita?” Eu quase cai de costas! Então marcamos um horário e fomos ao estúdio. Ele foi apertado no banco de trás de uma Parati “véia” do Kiko Muller, atual vocal do Golpe de Estado, mas o
Gillan nem ligou, autografou o teto e tudo mais! Alguns meses depois essa Parati foi roubada, e o Kiko lamentou mais pelo autógrafo do que pelo próprio carro.
Chegando no estúdio, ele tinha levado uma gaita em outro tom, não dava para colocar no meio da música. Foi quando tive a idéia de fazer uma vinheta, e rolou! Ele detonou com um solo lindo na introdução de um blues chamado Antes Só. Desse registro, só existia uma cópia em VHS que meu filho mais novo, o Tales (três anos), acabou de destruí-la, enrolando-se feito cobra! Quase chorei quando cheguei na sala e o vi parecendo uma múmia.
Em 1994, participei de um projeto chamado Baú do Raul, organizado pela Kika Seixas, ex-mulher do Raul Seixas, cantando clássicos do “Maluco Beleza” junto de grandes nomes do rock nacional, como Roberto Frejat, Luiz Carlini, Nazy, Edgar Escandurra e Franklin Paolilo. Os primeiros shows aconteceram no Circo Voador, RJ, durante dois dias, e depois fizemos outro grande show no vale do Anhangabaú, SP, além de outras duas apresentações no Aeroanta, SP. O legal dessas apresentações era que, em determinado momento do show, entrava no palco o Silvio Passos, um dos maiores colecionadores de coisas do Raul e presidente do maior fã clube do “Bruxo”. Ele colocava uma capa em mim, ou melhor, ele colocava a própria capa do Raul Seixas, eu cantava Rock do Diabo com ela. E digo uma coisa: usar aquela capa era muito louco, tinha uma energia diferente! Depois disso, entrei no primeiro time do cenário
cover de São Paulo, cantando em várias bandas de
classic rock, como
Big Balls,
Rock Memory,
Kaleidoscope e
Rádio Show (atualmente).
No ano de 1997, fiz uma audição para entrar no
Tribe of Gypsies, uma excelente banda de
rock latino dos meus amigos
Roy Z (guitarrista e produtor) e
Eddie Cassillas (baixo), ambos músicos do
Bruce Dickinson na época. O
Eddie mandou- me três músicas sem letra e sem melodia, por isso tive que compor tudo sozinho, e fiz um bom trabalho, mas a distância atrapalhou muito e não foi possível trabalharmos juntos. Depois disso, continuamos com uma grande amizade e, atualmente, eu e o
Roy Z conversamos em português, pois ele está noivo de uma brasileira há oito anos.
Em 1998, fui contratado para gravar um CD em
New York (USA) com a banda
Mr. Feeling (
hard/metal). Esse CD foi produzido por
Alex Periallas (
Anthrax,
Bad Religion,
Testament,
OverKill) em seu estúdio, o
Pyramid Sound Studios, em
Ithaca (NY), mas não chegou a ser lançado. Lembro-me que acertei os detalhes com o Marcos (guitarra) e com o Giuliano (bateria), e em uma semana eu estava voando para os Estados Unidos da América com esses dois doidos para gravar um CD, sem ao menos conhecer direito as músicas. Até então só tinha voado de avião duas vezes na vida, logo passei a noite inteira andando de um lado para o outro do avião e tomando vinho. As aeromoças queriam me matar e, para completar, estava passando
Titanic no telão. Tudo valeu a pena, pois a experiência foi fantástica:
New York, trabalhar com os gringos, gravar em um estúdio de primeiro mundo e com um dos melhores produtores de metal dos anos 80, foi demais! Gravei treze músicas em oito dias. Tomava muito café para agüentar o tranco, gravava cerca de dez horas por dia. Quando voltamos ao Brasil, mostramos e oferecemos esse trabalho para várias gravadoras, mas ninguém se arriscou a lançá-lo. Era o triste fim de mais um projeto, que até hoje está engavetado.
No mesmo ano, comecei a dar aulas de canto no Conservatório Souza Lima, onde fiquei por quase dois anos. Nesse período, rolou pela primeira vez a oportunidade de gravar com a banda Angra. Uma vez o Kiko Loureiro me chamou reservadamente lá no conservatório e me questionou em relação ao trabalho da banda Angra, perguntando se eu conhecia as músicas, se gostava de metal melódico e se conseguiria cantar as músicas. Perguntei o que estava acontecendo, e ele falou do mau relacionamento com o André Matos naquele momento, além de ter novos planos para a banda. Respondi que em time que estava ganhando não se deveria mexer, uma vez que eles estavam bem na mídia e crescendo cada vez mais no exterior, e que o mais certo era tentarem pensar no nome da banda, deixando toda vaidade e diferenças de lado. Parece que deu certo, pouco tempo depois eu tive a oportunidade de conversar com o próprio André e reforçar a idéia de que aquele não era o momento de trocas, mas sim de união e respeito aos fãs e ao nome da banda. Naquele ano sairia o CD
Fireworks.
Em 2000, fui convidado para gravar com o guitarrista Fábio Rocha, indicado por Andria e Ivan Busic, do
Dr. Sin, que também tocaram no CD, outro trabalho que tive que gravar às pressas. Recebi o material com a voz do próprio Fábio, que era muito ruim, por sinal. Resultado: tive que refazer quase todas as músicas e, muitas delas, na própria sessão de gravação, mostrando para o Fábio por telefone. Um dia, na sessão de gravação da música
Last Train to Heaven, apareceu uma sombra em cima da folha que tinha a letra, que era a silhueta da imagem de Deus, certinho, Fiquei muito assustado e chamei um amigo que estava lá comigo, o Capo, para tirar uma foto. Quando ele entrou na sala, esbarrou em um pedestal e tirou a estante da letra de lugar, fazendo mudar completamente a sombra, não acreditei... Bom, pensei comigo mesmo: “Era só viagem”. Pouco depois olhei para o papel e lá estava a sombra, de novo, certinha. Aí falei no microfone: “Meu, a sombra tá aqui de novo!” Os caras falaram: “Pára Nando, vamos gravar.” Mas eu respondi que era sério, e o Capo entrou parecendo um gato na sala e começou a focar. Quando foi bater, a câmera travou. Ele apertava o botão e nada acontecia, desligou e ligou de novo, e nada. No outro dia a máquina estava perfeita. Foi muito emocionante gravar com aquela sensação.
Outro dia emocionante, foi quando o
Mike Vescera (
Yngwie Malmsteen,
Loudness,
Dr. Sin) foi assistir a uma sessão de gravação junto com Andria e Ivan Busic. Eu estava gravando a musica
I Wish, e quem conhece essa música sabe que a gravei com muita vontade, tanto que fui bastante elogiado por
Mike no estúdio, dizendo que ele não via mais cantores assim no mundo. No estilo
heavy metal gospel, o disco saiu em alguns países com uma boa aceitação. Com esse trabalho, tive a oportunidade de cantar em Recife (Dokas, no centro antigo) junto com o primeiro show da banda
Shaman. A propósito, gostei muito do show, e mesmo sem as pessoas me conhecerem, fui muitíssimo bem recebido, o que é de praxe do povo nordestino. Espero fazer, muito em breve, grandes shows, e criar muitas novas amizades por lá.
Nesse mesmo período, fui contratado para coordenar e dar aulas de canto no ICT (Instituto de Canto e Tecnologia), dentro da EMT (Escola de Música e Tecnologia), onde fiquei por mais de um ano com aproximadamente sessenta alunos. Essa experiência foi muito produtiva para mim como professor, pois me especializei em aulas em grupo, implantando o projeto de salas com computador, microfones e
playbacks. Um ano após isso voltei a dar aulas particulares em meu estúdio, onde estou até hoje.
Entre os anos de 2002 e 2005, além de continuar cantando na noite, tive uma participação marcante dentro do programa Raul Gil. Cantei em exatos trinta programas, nos quais sempre busquei elevar o nome do
rock cantando clássicos do
Scorpions, do
Queen, do
Deep Purple, do
Creedence, do
Whitesnake, entre outros. Em um programa, o Raul Gil me ofereceu R$ 50.000,00 e mais um carro para eu parar de cantar, mas não peguei a grana, e hoje tenho que agüentar meu filho mais velho me dizendo: “Papai, porque você não pegou aquele dinheiro?” Na época, aquela grana iria dar uma bela ajuda no meu orçamento, mas preferi continuar cantando, e o que ganhei? Fui contratado para o CD Usina de Talentos, uma coletânea gravada com vários artistas do programa. Esse trabalho me rendeu cerca de R$ 80,00. Isso mesmo! Não escrevi errado! O lado bom é que até hoje as pessoas me param na rua para elogiar meu trabalho, e isso não tem preço.
Em 2003 fui indicado para fazer
backing vocal na turnê da cantora Wanessa Camargo. Trabalhei com ela durante um ano e meio em shows pelo Brasil inteiro. Participei da gravação do CD/DVD
Transparente, produzido por Marlene Matos no antigo Claro Hall, RJ. Conquistei grandes amigos durante esse trabalho, mas vi o lado negro das grandes estrelas. Às vezes é preferível ser feliz com pouco a viver num mundo de mentiras e tristezas cheio de grana. Também pude ver, durante a turnê com a Wanessa Camargo, qual era a força de divulgação do programa Raul Gil, pois fui em cidades muito distantes e sempre vinha alguém falar comigo, após o show, dizendo que era meu fã desde o programa. Muito legal!
No ano de 2006, participei de um programa de rádio sobre futebol e
rock’n’roll chamado
Prorrogação, da
Brasil 2000 FM. Tocava ao vivo com a banda Expulsos da Gravadora durante o programa, fazendo
jam sessions com vários artistas convidados. O programa era apresentado por Walter Casa Grande Jr., Mauro Betin, Eduardo Afonso e Nazy. Durante esse ano, também produzi e apresentei no Manifesto Bar, em São Paulo, o projeto
A Voz do Rock, um karaokê de
rock profissional que aconteceu aos domingos durante todo o ano, revelando grandes cantores(as), e com
pocket shows de artistas consagrados.
Em outubro desse mesmo ano, 2006, o acaso levou-me ao encontro com o Aquiles. Eu precisava entregar um CD,com
playbacks do
Journey para o Rafael Bittencourt, do Angra, e combinamos numa sexta-feira à noite, no ponto de encontro deles antes de uma viajem para Brasília. Chegando lá, ele ainda não estava, mas o Aquiles sim, o qual me perguntou se eu tinha um aluno para o
Hangar, e eu respondi: “Por que não eu?” Ele riu e disse que eu era muito
top para a banda dele. Trocamos telefones e ficou assim. Na mesma época, eu estava gravando com alguns alunos no antigo VR estúdio, do Roberto “Bruce” e do Fábio “Ceni”, e os testes do
Hangar estavam sendo feitos lá também. Um dia o Roberto falou que precisava gravar um CD com alguns testes porque o Aquiles ia passar para pegar, foi quando ouvi, pela primeira vez,
Hangar, inclusive na voz do João Luiz (
King Bird), que estava na fase de testes também, e achei muito bom. Pedi para o Roberto copiar e levei as músicas (
TROYC e
Hastness) e os
playbacks sem o Aquiles saber... rsrsrs. Outro dia, encontrei com o Aquiles em um show da distribuidora Universal, e foi quando ele me convidou para entrar na banda. Marcamos uma reunião, na qual estavam também o Martinez, o Fábio Laguna e o Nando Mello. Ouvimos algumas de minhas gravações e batemos o martelo. Minha estréia no
Hangar ocorreu de repente, alguns dias depois, na
Expomusic 2006, sem muito tempo para ensaios e com uma tremenda pressão nas costas. Eu não tinha as letras decoradas, não tive tempo de estudar, então precisei providenciar uma pasta com todas as letras e pedir para uma amiga fã, a Carol, ficar segurando durante os quatro shows que fizemos! Para completar, eu estava completamente doente, à base de cortisona. E para aumentar a pressão, duas dessas apresentações foram vistas e fotografadas pela
Naomi Ohno, uma das mais respeitadas jornalistas da revista japonesa
Burnn!, o que rendeu a primeira matéria na melhor revista de
rock Japão.
Graças à energia das músicas e ao calor dos fãs, consegui mostrar minha garra e minha determinação, conseguindo um bom resultado nas apresentações e sendo muito bem recebido pelos antigos e novos fãs da banda e, principalmente, por ter sido bastante elogiado pelos integrantes. Alguns amigos também colaboraram com a minha entrada no
Hangar, pois deram boas recomendações a meu respeito. Foi o que fizeram Edu Falaschi (Angra) e do Marcello Pompeu (
Korzus). Nunca tinha ouvido nada do
Hangar, somente conhecia o nome da banda, e confesso que, por causa do nome, tinha muita curiosidade de ouvir alguma coisa.
Depois da loucura toda de estréia, chegou a hora de gravar. A rotina foi sempre bem acelerada, gravando de seis a dez horas por sessão, mas todo mundo estava no mesmo pique: o Aquiles finalizando as últimas letras, o Fábio terminando os arranjos dos teclados e eu gravando até altas horas da madrugada. A galera do Mr. Som, Pompeu, Heros e Alemão, nos deram um super apoio, juntos até o fim sem deixar a peteca cair. Foi um disco marcado pela superação por parte de todos. Lembro-me de estar cantando há horas, com a cabeça a ponto de explodir, e o Aquiles falando na técnica: “Vai de novo bugre, eu sei que você pode fazer melhor”. E lá ia eu a gritar mais, e mais, e mais. Identifiquei-me rapidamente com o Aquiles já que, pelo fato dele ser um cara muito detalhista e profissional ao extremo, nos parecemos muito nesse aspecto. Já o Fábio é um cara mais tranqüilo, mas muito competente também. O Martinez me transmitiu muita confiança em tudo o que eu fazia. Com o Nando Mello, não tive muito contato durante minhas gravações, mas ele é bem tranqüilo e atencioso também. Resumindo: valeu a pena todo esse sofrimento, e sempre vai valer se for sentido por uma causa tão nobre como a nossa dentro dessa banda. Acredito muito nesse trabalho e tenho certeza que vamos escrever um belo capítulo na história do
heavy metal Brasileiro. Com o
Hangar, estou realizando o sonho de ver um trabalho atravessando fronteiras e ser recebido com muito respeito fora do Brasil. Tenho muito orgulho de fazer parte desse time que, além de ter excelentes músicos, tem grandes caras que merecem cada centímetro de sucesso que lhes aguarda.
Paralelamente ao
Hangar, estou produzindo alguns artistas, dando aulas de canto, gravando
jingles, cantando na noite com a minha banda
cover Rádio Show e participando de alguns projetos, como o
Soul Spell, uma ópera metal 100% brasileira. Tenho utilizado bastante a minha voz na área da publicidade, cantando a trilha de grandes comerciais de TV. Dentre os mais recentes, destaco o da
Chevrolet S10 Flex e o do
Renault Scénic Kids, no qual cantei a clássica
Highway Star, do
Deep Purple. Também participo dos shows da grande banda brasileira
Tutti-Frutti, do meu grande amigo e excelente guitarrista Luiz Carlini. Em todos esses anos de carreira, já tive a oportunidade de fazer
jam sessions com grandes nomes da música nacional e internacional como Barão Vermelho, Ed Motta,
Rudy Sarzo (
Whitesnake,
Quiet Riot), Faíska,
Dr. Sin, Golpe de Estado,
Glenn Hughes (
Deep Purple),
Ian Gillan (
Deep Purple,
Black Sabbath), Capital Inicial, Pepeu Gomes, Blues Etílicos, Íra, Luiz Carlini (
Tutti-Frutti), Supla, Lobão, Wander Taffo (Rádio Taxi),
Korzus,
Roy Z (
Bruce Dickinson,
Tribe of Gypsies),
Eddie Cassillas (
Bruce Dickinson), Angra, Andreas Kisser (Sepultura), André Matos (Angra,
Shaaman), entre outros.
E para as pessoas que leram essa história, deixo a seguinte mensagem: com determinação você pode chegar longe, com capacidade você chega mais longe ainda, mas só com amor você chega onde quiser. Então, para você que tem um sonho especial, procure estar pronto, o mais rápido possível, pois nunca se sabe quando a oportunidade vai olhar para você.
Muito obrigado a todos os meus amigos por todos esses anos de apoio e incentivo, e principalmente à minha família, por todo respeito e amor.
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