Foi em fevereiro de 1977 que, em meio a milhões de pseudo-indivíduos, iniciei a minha jornada para tornar-me um indivíduo em plenitude. E como qualquer indivíduo que se preze, depois de nove meses lá estava eu, dando as caras para o mundo em dezoito de novembro do mesmo ano. Nasci em Mococa, uma pequena e acolhedora cidade meio paulista, meio mineira, terra das palmeiras imperiais, da vaquinha Mococa, do Rogério Cardoso e de outras bizarrices. A minha terra...

Com o meu pai, Miguel, desde pequeno aprendi a dar valor nas coisas simples da vida. Ele era contador e administrava algumas fazendas do grupo F. Barretto. Viajávamos muito ao pantanal mato-grossense e ao Paraná, tendo constante contato com a natureza. Talvez isso justifique a minha necessidade de estar na estrada. Não há nada que pague o prazer de viajar no banco da frente. Pena que os carros, hoje em dia, andem tão rápidos que às vezes uma linda paisagem pode passar despercebida. Com a minha mãe, Sandra, aprendi a dar valor nas coisas simples da alma. Professora de língua portuguesa, ela também foi muito responsável pelo meu excelente desempenho escolar. Ensinou-me a ser disciplinado e, através da doutrina que seguia, o espiritismo, mostrou-me como abstrair e enxergar além das possibilidades.

E assim a vida foi passando e, como todo moleque, aprontava de tudo na companhia de meus irmãos, André (o mais velho) e o Rodrigo (o caçula), e dos meus primos mais próximos, Paulo e Helena.

Meus avós maternos moravam em nossa casa. A Vó Grácia mostrou-me como duas pessoas podem coexistir dentro de uma só. Era, e ainda é, um misto de bondade infinita e malícia impagável. Coisa de vó, de gente que assiste à novela. Do vô Antônio, herdei a dignidade e a satisfação que o trabalho pode trazer a um homem. Em sua oficina no quintal, meu lugar preferido da casa, a madeira se transformava nos melhores brinquedos que uma criança pode imaginar: carros de roller man, casas, peões, rampas, pernas de pau, balanços, etc. A maioria das ferramentas que ele nos deixou é usada até hoje.
Todo mundo quer ser jogador de futebol ou artista, e de certa forma eu também queria. Desde pequeno posava de galã com o Ray Ban do meu pai e um fone de ouvido. O plug era o microfone. Ridículo! Mas se alguém pudesse imaginar todas as conseqüências de suas decisões, não tomaria nem a primeira. E quando vi o meu irmão, André, se enveredando pelo mundo da música e da tecnologia, fui na cola. Já estava decidido e não sabia.

Meu pai proporcionou-nos contemplar a evolução dos micro-computadores (ou seriam macro?), desde o Scopus, cujo disquete mais parecia um LP, até os TK, que tinham os seus softwares gravados em fita cassete. No mesmo compasso, ganhamos um teclado minúsculo. Já conseguia tocar algumas melodias simples, mas a minha diversão predileta era “samplear” os sons ao meu redor (sim, o brinquedo “sampleava”!) e executar melodias com eles. Valia de tudo: som de arroto, do papagaio Pité, do plin plin da Globo, de peido, de porta batendo, da cadela Mara, etc.

Algum tempo depois, começaram a acontecer alguns saraus em casa. O André e seus amigos se enfurnavam no quarto para tocar e eu ficava só “moscando”, querendo participar da brincadeira de qualquer jeito. Até que, em um belo dia lá pelos dez anos de idade, entrei na roda para acompanhar meu irmão. Eu tocava bateria com os dedos em um outro teclado ou em uma bateria eletrônica emprestada. Talvez esse seja o motivo do meu fascínio por este outro instrumento.

O meu pai, por tocar um pouco de violão e ser um apreciador da música em geral, tinha algumas ligações com os músicos da cidade. Dentre eles, estavam os tecladistas Vitor Luciano e Granito, que sempre nos apresentavam suas novas aquisições. Eu ficava bestificado com os sons, ritmos e aquele monte de botões coloridos. Percebendo o crescente interesse pelas teclas por parte do meu irmão e de mim, fomos presenteados com um Yamaha DSR-1000. Na época foi um frenesi! Não havia nada igual na área. Mesmo assim, ainda usava o instrumento para outras finalidades extra-musicais. Ficava alterando a configuração dos timbres para criar novos sons e copiava as batidas das músicas eletrônicas que o André ouvia.

Participei então da minha primeira produção! O show foi no quintal de casa e o palco era a varanda da edícula. Tinha iluminação, pano de fundo (uma lona amarela com um monte de capas de discos), equipe familiar de filmagem e platéia. Como meu irmão tocou teclado, fiz somente alguns backing vocals. Mas no final das contas, ali mesmo, no quintal de casa, pude perceber que seria muito interessante levar tudo aquilo a sério. Ainda na cola do André, passei a freqüentar aulas de órgão eletrônico com a professora Neusa Dal Rio. Ele já estava em um estágio mais avançado e conseguia ler peças simples com facilidade. Comecei do zero, e aquele monte de bolinhas encheu-me o saco e levou-me a desistir das aulas depois de dois meses. Eu não havia, entretanto, desistido do sonho de ser um músico de verdade. Continuei praticando e aprendendo em casa, até que um dia surgiu o convite para integrar uma banda, a Veneno Destilado, e fui ao primeiro ensaio da minha vida, que aconteceu na casa do baixista, o Marquinhos. Ele e o guitarrista (o saudoso Alexandre) ensaiavam deitados em cima da cama, eu ficava na janela e no único espaço térreo do quarto ficavam o Flávio (baterista) e os amplificadores. Com essa banda, fiz o meu primeiro show em uma cidadezinha de Minas Gerais chamada Milagres. Deixei a banda após o segundo show, pois o repertório desagradava-me um pouco e ainda me preocupava com isso.

Algum tempo depois conheci dois caras que foram os responsáveis por grande parte da minha identidade musical: o guitarrista Rodrigo Ferreira e o baixista Ricardo Lucon. Enquanto eu ouvia The Doors, New Order, Dire Straits, Front 242 e outras coisas estranhas, eles estavam anos luz “à frente” e me apresentaram Pink Floyd, Yes, Deep Purple, EL&P, Black Sabbath, etc. Montamos uma banda, chamada Lord Harbor. A proposta era simples e clara: compor e tocar rock progressivo. Nada mal para garotos de quinze anos em uma cidade interiorana. Essa audácia rendeu comentários na comunidade roqueira e musical da cidade, e rendeu também duas demo tapes, a Sounding In Your Mind e a Shortcut to Mars. Além de tocar teclado, eu também era o vocalista da Lord Harbor. Ensaiávamos religiosamente todo final de semana e fizemos algumas apresentações pela nossa região.

Mesmo estando muito feliz com a Lord Harbor, queria ampliar meus horizontes. Comecei a procurar emprego nas bandas profissionais locais. Fui admitido na Workshop, banda que reunia os melhores músicos da cidade: Beto Costa (guitarra), André Costa (bateria) e Joca Miquinioty (baixista). Minha primeira apresentação com eles foi um sufoco. Cantei La Bamba (hahaha) com as mãos no bolso, tamanha era a vergonha. Pelo menos não desafinei e me diverti muito! Mas a situação mais cômica foi que, no dia seguinte, eu não queria receber o meu cachê. Só tinha quinze anos e não entendia por que, além de ter feito um som, divertir centenas de pessoas e me divertir, ainda tinha que ser pago por isso?! Como todos tinham quase o dobro da minha idade, aprendi muito. O Beto, que considero meu maior mestre, era linha dura, e exatamente por isso é que o meu enriquecimento musical foi muito grande nessa época. Por ser a Workshop uma banda de baile, tocávamos todo tipo de música. Assim, a maior lição nessa banda foi: quando se sai de casa para tocar (leia-se trabalhar), é melhor deixar o ego em casa, pois o grande barato de tocar é tocar. E tocamos muito. Foram quase quatro anos viajando em uma Kombi pelo interior de São Paulo e Minas Gerais. Anos mais tarde, fiquei sabendo que a minha entrada na banda havia sido para dar um “aperto” no tecladista que já tocava com eles. Fizemos alguns shows com dois tecladistas, mas a vaga acabou ficando para mim.

Nessa época, cursava o segundo grau escolar e, devido à falta de tempo, tive que abandonar a Lord Harbor. Para lavar a alma, existia o Rockstory, banda formada pelos músicos da Workshop, mas com uma diferença básica: nós só tocávamos o que queríamos. Até hoje a gente se reúne esporadicamente para alguma jam ou show. Ainda nesse período, juntei material suficiente para gravar o meu primeiro trabalho solo, a demo Atomic Bride, que foi muita bem recebida pela crítica.

Aos dezoito anos de idade, a minha vida deu uma guinada de 180 graus. A Workshop havia encerrado as suas atividades, a grana ficou curta e eu estava preste a iniciar o curso de Direito. Foi um momento muito difícil, porque se eu tivesse que trabalhar (no sentido mais capitalista da palavra), a música ficaria em segundo plano, e ela sempre esteve em primeiro. Tive que me virar. Montamos a banda Hangar 6 (qualquer semelhança é uma puta coincidência), com Paulo Orlandi (bateria), Joca Miquinioty, Rodrigo Ferreira, Luis Braga (vocal) e Anderson Burrone (percussão). Na ocasião, iniciava-se uma campanha política. Fizemos cerca de cinqüenta showmícios e, com apenas dois meses de existência, a banda já estava com uma estrutura razoavelmente grande. Mesmo assim, no começo, viajávamos em um fusca arrastando uma carretinha com todos os instrumentos. Aquele fusca era nervoso! Foi uma fase maravilhosa. Todo mundo era dono, todo mundo se empenhava, a banda tinha uma pegada forte e uma performance explosiva. Para tornar o show de quatro horas menos cansativo, todos os músicos alternavam os instrumentos. Além do teclado, eu tocava bateria, baixo, percussão e cantava. Foram mais de trezentos shows em quatro anos. Longos dias... Longas noites ... O Luis e eu também tínhamos a função de empresário. De pastinha na mão, saíamos sem destino pelo interior de São Paulo e Minas tentando vender a banda.

Em meio a toda a correria, eu encontrava tempo para tocar com outras bandas. Fui convidado para integrar a Fábrica Velha, banda de blues rock. Os shows foram poucos, mas incendiários! Em uma das apresentações que fizemos, comecei a girar a estante do teclado, me enrosquei nos cabos e foi tudo para o chão: estante, teclado, microfone e eu. Ainda bem que estávamos na última música. Com a Fábrica Velha gravei uma demo que não chegou a ser lançada, pois a banda acabou durante a mixagem.

Nesse período, comecei a fazer alguns trabalhos em estúdio como arranjador e produtor para diversas bandas do interior de São Paulo e Minas Gerais. Com a Flávio Marx Band, auto generalizada pop rock mineiro, gravei o álbum Em Um Estado Imaginário, no estúdio do Haroldo Ferretti (Skank). As baterias foram gravadas pelo Ely e parte das guitarras pelo Cláudio Venturini (ambos da 14 Bis). Trabalhei como free lancer para várias bandas. Eu me encontrava na fase “tiro para todo lado”, pois nenhum dos meus projetos estava dando-me sustento. Esses foram alguns tiros e seus respectivos alvos: - Juke Box: rock´n´roll; - Musical Som Três: casamentos, aniversários, clube para mulheres, quermesses, etc;- Alternativa: baile e marchinha de carnaval em puteiro;- Môdas & Mudabas: pop rock e mpb; - Xaveco: pagode; - Gil & Guaxupé: sertanejo; - FEOBand: rock ´n´ roll; - Coronel Joe: country music; - OFFicina do sON: pop rock; - Carlinhos Salvador: mpb;- Loucur@.com: pop rock e loucura;- Vide Bula: pop rock.

Do ponto de vista dos conservadores, radicais e idealistas, a minha situação estava crítica, mas o que é que eles têm a ver com a minha vida? O fato é que nunca abri mão da minha música. Enquanto tocava um monte de “merda” para ajudar nas contas e terminar a faculdade, não havia esquecido um minuto sequer dos meus objetivos.

Em julho de 1999 fiquei sabendo que o Angra se apresentaria em Poços de Caldas. Uma semana antes do show, liguei para um dos produtores, o Jean, para comprar ingressos. No meio do papo, descobri que ele tinha uma banda de heavy metal chamada Victoria, e ele descobriu que eu era tecladista. Assim, fui convidado para tocar com o Victoria, que seria banda de abertura nesse show do Angra. Acabei ficando por dois anos nela. As composições eram muito boas, mas não existiam objetivos claros. Deixei a banda com grande pesar, pois era uma pena ver todo aquele potencial prejudicado pela total falta de direcionamento. Ainda nesse ínterim gravei com algumas bandas de metal, dentre elas a Funeratus e a Spirit Heaven, e comecei a gravar o meu primeiro disco solo.

Com o fim do curso de Direito aproximando-se, estava por me deparar com uma nova encruzilhada: caso não conseguisse me estabilizar definitivamente com a música, teria que encontrar um outro meio de subsistência. O que se tornou o meu primeiro álbum solo, o All Night Party At Gallamauaka´s Land, era, na verdade, um curriculum que foi desepejado em todo o meio musical, independentemente do estilo, como última tentativa de arrumar algum emprego. Além disso, era um esforço para justificar os meus oito anos como músico profissional e os cinco anos de curso de Direito, por ter sido feito através da Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura). Antes do trabalho ser finalizado, enviei uma monitor mix a algumas gravadoras, somente com o intuito de saber se era um disco razoavelmente bom para ser lançado. Recebi diversas propostas, mas não pude aceitar nenhuma por se tratar de um trabalho independente. Na mesma época, o Hangar estava negociando com uma das gravadoras que havia enviado o meu disco, chamada Mega Hard. O proprietário dessa gravadora, Márcio, disse que seria legal se conseguisse gravar baterias de verdade no meu disco (e como seria!) e colocou-me em contato com o Aquiles, o baterista do Hangar. Infelizmente não rolou, pois o disco já estava quase pronto e, como quase sempre, com o orçamento pra lá de estourado. Coincidentemente, o Hangar estava terminando o seu novo disco, o Inside Your Soul, e estavam procurando um tecladista para gravar uma introdução e algumas linhas de teclado. Recebi a demo e adorei as músicas. Uma semana depois fui para São Paulo com algumas idéias prontas.

Até então, as minhas viagens restringiam-se mais ao interior de São Paulo e Minas. Só havia tocado em São Paulo com a Victoria em ocasiões esporádicas. Ainda não conhecia a capital do estado, digamos, por dentro. E da mesma forma, o terminal rodoviário também era um território inexplorado. Fiquei mais de meia hora tentando encontrar a área de embarque. Sheep na cidade grande! Era a mochila nas costas (sempre!), o teclado em uma mão e o celular na outra falando com o Aquiles, que me esperava lá fora, enquanto eu andava para lá e para cá, perdido. Enfim, conseguimos nos encontrar. O baterista, para minha surpresa, apresentou-se em sua versão executivo-pai de família, com esposa, filha, terno e gravata. Um choque! Definitivamente imagem não é nada.
Correria danada! No mesmo dia fomos para o estúdio. Muitas partes de teclado foram feitas na hora da gravação, como a própria introdução do disco, The Soul Collector. Ainda com o Hangar, participei do projeto Willian Shakespeare´s Hamlet, através do qual pude aproximar-me um pouco mais da tribo heavy metal de São Paulo. E fizemos alguns shows, dentre os quais fomos openning act para o Savatage por duas vezes. Um aconteceu no Via Funchal, em São Paulo. Fiquei bestificado com a imponência dessa casa de shows. Não conhecia nada igual, e realmente não há nada igual por aqui. Confesso que tremi nas bases. Estava tão nervoso que até esqueci de tirar a credencial antes de entrar no show, e só percebi isso no meio da segunda música.

Foi um momento confuso quanto aos meus objetivos e sonhos. Estava me desligando do Victoria e entrando, novamente, em uma outra banda de heavy metal. O lado bom nisso tudo é que, em uma questão de semanas, o Hangar proporcionou-me muito mais coisas do que o Victoria havia proporcionado em todo o tempo que estive nessa banda, e isso reacendeu minha crença em apostar em algo próprio, em fazer música, e não ficar só copiando. Nas bandas de baile ou de covers que toquei, sempre entendi que os aplausos eram para os donos das canções, mas vaias eram para nós mesmos.

Mesmo considerando o ano de 2001 o mais importante da minha carreira, ele não tinha começado muito bem. Havia terminado a faculdade (ótimo, mas e daí?!), não havia passado no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o mercado do entretenimento no interior estava passando por mudanças drásticas. Dezenas de bandas de baile suspenderam as suas atividades e seus músicos formaram bandas menores, sem uma super produção e qualquer blah, blah, blah. Isso significa que a concorrência acirrou mais ainda, em detrimento à renda dos músicos.

Em um intervalo de tempo menor do que dois meses, foram lançados os trabalhos mais importantes dos quais eu havia participado até então. Foram eles: Inside Your Soul (Hangar), All Night Party At Gallamauaka´s Land (meu disco solo), Em Um Estado Imaginário (Flávio Marx Band), Storm of Vengeance (Funeratus), Aria´s Kingdom (Spirit Heaven) e o projeto Willian Shakespeare´s Hamlet. Apesar disso, o cenário continuava desolador. Com todos esses lançamentos e o boom que proporcionaram ao meu nome, nada acontecia. Pela primeira vez estava disposto a realmente desistir de meus sonhos para me tornar, quem sabe, um promotor, um delegado ou um juiz!

Foi então que, em um domingo à noite, recebi uma ligação do Aquiles, que já havia se tornado o novo baterista do Angra, dizendo algo como: “Fábio, a turnê do Rebirth começa na próxima sexta-feira. Como ainda não definimos quem será o tecladista, precisamos dos teclados das músicas antigas para os shows. Você conseguiria entregar isso até quarta de manhã?” É claro que só pude responder: “Sim!” Levei todo o meu equipamento para o escritório de advocacia do meu pai, ao lado de sua casa. Só saia de lá para comer, cagar e buscar café, pois não podia perder um segundo na causa mais importante da minha vida. Era tudo ou nada! Na quarta-feira, às 5h45, finalizei a última das seis trilhas encomendadas. Às 6h00, entrei no ônibus para São Paulo. Cheguei na casa do guitarrista Kiko Loureiro no final da manhã sem saber o que esperar. Feitas as apresentações, a primeira pergunta dele foi: “Quantas você conseguiu fazer?” E eu: “Todas”. Então: “Sério?” Eles haviam dado o prazo de um mês para um outro tecladista fazer o mesmo serviço, enquanto só tive setenta e duas horas. Passamos o dia todo mixando e corrigindo alguns detalhes nas trilhas e, no final da tarde, voltei para a minha cidade. Minha cabeça estava em parafuso. Até esse momento, já tinha ouvido rumores de que seria chamado para um teste para acompanhar o Angra, mas como sou um cético nato, não acreditava muito nisso. Oras bolas! Que chances teria um tecladista caipira contra as dezenas de tecladistas metaleiros, escaleiros, “famosos quem”, do clubinho do Souza Lima, que não têm sotaque interiorano, e que não precisariam aturar dez horas de ônibus toda santa vez que o Angra tivesse um show? Contrariando a minha própria razão, no dia seguinte, quinta-feira, fui convidado para acompanhar o Angra em sua nova turnê.

Cancelei todos os meus outros compromissos profissionais, rasguei a inscrição para o exame da OAB e arrumei as malas para assumir o cargo mais concorrido da magistratura brasileira, o de “tecladista de heavy metal no país do samba”. O momento mais marcante de toda a minha história com o Angra ocorreu antes mesmo do primeiro show. Foi quando, dentro do tour bus, recebi a agenda dos shows cujo título se apresentava em forma de veredicto: “Bem-vindo à Rebirth World Tour”.

E os primeiros shows foram, no mínimo, tragicômicos. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Montei e desmontei meu teclado, ajudei a carregar os equipamentos e desenrolei e amarrei o pano de fundo. Como ainda não sabia tocar todas as músicas, ficava improvisando ou dublando, ria sozinho, chorava sozinho ou tocava outras músicas porque estava fazendo o show só para mim. O meu monitor era o meu PA. Diversão garantida. Também não fui agradecer ao público no final dos dois primeiros shows em respeito à minha condição de músico de apoio.

Isso tudo foi muito, mas muito estranho para mim. Pela primeira e única vez me senti um apêndice de uma banda. Até então eu era “dono do meu nariz”: administrava as bandas em que tocava ou tomava conta do meu negócio como músico free lancer. Eu ditava as minhas regras, por isso a adaptação ao Angra foi dura. Só encontrei um equilíbrio depois de seis meses de casa. Um pouco antes disso, pensei seriamente em abandonar o posto. Era simplesmente inacreditável, pois havia acabado de fazer uma turnê no Japão! Sim, no Japão! De Mococa para o Japão, o lugar mais longínquo que eu poderia tocar. Ainda assim sofria muito com o novo esquema de trabalho. Na volta dessa turnê, dentro do avião, e depois de nove garrafinhas de vinho (se consegui contar, é porque não fiquei tão bêbado) desabafei... Disse para o Aquiles que não suportava mais e ele conseguiu fazer com que eu abrisse minha cabeça. Ele é muito bom nisso. Enfim, entendi que em uma banda renomada, ninguém espera que você traga problemas, da mesma forma que esperam que você resolva os seus problemas sozinho. Se você está ali, é porque mereceu e tem condições suficientes para segurar as encrencas do caminho. E daí pra frente tudo ficou colorido e prazeroso de novo.

Ainda segundo a minha sentença, fui condenado a fazer três turnês com mais de duzentos e setenta shows por vinte e cinco países ao redor do mundo, participar de alguns dos mais importantes programas da televisão brasileira (como Programa do Jô, Altas Horas, Musikaos, Hermes & Renato, etc), participar de um EP, o Hunters and Prey, e de um CD/DVD ao vivo, gravado em São Paulo.

Entre cada turnê do Angra, aproveitei o tempo “livre” para concretizar outros projetos. No começo de 2003, fiz uma turnê pelo Nordeste do Brasil com o Hangar. Uma das loucuras dessa turnê foi viajar cinqüenta e três horas em um ônibus convencional lotado, de São Paulo para São Luís, no Maranhão. No final da viagem começamos a ficar extremamente anti-sociais, colocando pessoas no bagageiro, rasgando roupas, etc. Claro, isso aconteceu entre amigos, mas o motorista do ônibus parou em um posto policial, atendendo ao pedido de uma passageira, que alegou que pessoas estavam nuas no fundo do ônibus. Felizmente seguimos viagem.

Tornei-me membro oficial do Hangar no ano anterior de forma muito estranha, como não poderia deixar de ser: fiquei sabendo que era um integrante quando abri uma edição da revista Rock Brigade, e havia uma nota sobre isso. Ninguém da banda havia me falado nada. Foi um susto muito bom! A partir de então eles puderam contar com mais um fiel acionista para dividir as contas. Até então recebia cachê para fazer os shows. No mesmo período, participei do primeiro álbum da banda Eyes of Shiva, intitulado Eyes Of Soul. Nesse trabalho, além de gravar os teclados, também assinei a produção. E gravei os teclados do álbum de estréia da banda Thalion, chamado Another Sun.

Em 2004, começamos a produção das músicas que fariam parte do novo CD do Hangar, a qual se arrastou por três anos. Foram sessões insanas. Por exemplo: a gente passou o carnaval desse ano enfurnado na sala onde o Aquiles dava aula, no C.O.M. (Centro de Orientação Musical). Pela primeira e única vez na vida, tive a felicidade de não ouvir nenhum sambinha ou axé durante esse feriado tão abençoado por Baco. O Aquiles e eu também usávamos os dias de folga da turnê do Angra para compor linhas melódicas vocais. Nós montávamos o teclado e um cubinho Staner, que ele sempre carregava, e passávamos o dia inteiro fritando os neurônios. Os sons do metrônomo e da flauta passaram a ser recorrentes pelos corredores dos hotéis onde ficávamos hospedados.

Em janeiro de 2005 o Hangar tinha seis composições arranjadas, então gravamos a demo desse material. As gravações ocorreram no Estúdio V.R e, como não podia deixar de ser, de forma insana. A demo ficou pronta exatamente no dia em que o Aquiles e eu embarcamos para uma turnê no Japão e na Europa com o Angra. Essa demo serviu para confirmar uma triste verdade: o Hangar estava ficando pesado demais para o vocalista Mike. Tentamos encontrar uma saída razoável para isso, mas, infelizmente, depois de muita conversa, chegamos à conclusão de que deveríamos desistir de seguir em frente com a banda se não tomássemos a difícil decisão de trocar de vocalista. Nunca havia passado por uma situação tão horrível dentro de uma banda. Felizmente, o Mike entendeu tudo e conseguimos manter com ele o que há de mais importante dentro de uma banda: a amizade.

Passado o turbilhão, o que veio a seguir foi não menos pesaroso: a escolha do novo vocalista. O Mike tem um timbre de voz maravilhoso e muito único. Era a voz do Hangar. Então, para que lado deveríamos apontar na escolha do novo cantor? Para saber isso, tivemos que fazer mais de vinte testes, e a cada teste a frustração aumentava. Muitos dos candidatos eram excelentes, mas não tinham exatamente o perfil que estávamos procurando. Finalmente, depois dessa maratona, resolvemos convidar o renomado vocalista Nando Fernandes para um teste. Desde o começo da fase de testes seu nome era cogitado, mas havia um certo receio de que, pela sua história, não iria encarar uma banda de malucos como o Hangar. Estávamos redondamente enganados! O cara não só arregaçou no teste como abraçou a banda na mesma proporção que a gente, os malucos de plantão.

Em 2006, participei do álbum Almah, projeto paralelo do vocalista Edu Falaschi, que reuniu músicos como Lauri Porra (Stratovarius) e Empu Vuorinen (Nightwish). No mesmo ano, também foi lançado o Freakeys (Freakeys), álbum instrumental do qual fui compositor e produtor, e conta com a participação mais do que especial dos amigos Aquiles Priester, Felipe Andreoli e Eduardo Martinez. Esse foi o trabalho mais desgastante em que estive envolvido. Foi um disco com vontade própria. Em 2004, fiz um projeto pela Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) para a gravação do meu segundo disco solo. O projeto foi aprovado pelo Ministério da Cultura, recebi a grana para produzi-lo e não tinha nem meia música pronta. Passei quarenta dias compondo enclausurado em um depósito do grande amigo Candinho, literalmente picando cartão: entrava às 8h da manhã e saia às 11h para fazer meus exercícios físicos e almoçar; depois voltava às 13h e ficava até às 7h da noite. Loucura, loucura... Era um P.A, meus teclados, as minhas amigas baratas e eu. No final desse processo, tive que assaltar a adega do meu amigo para agüentar o tranco. Foi dessa rotina que surgiu o nome da primeira faixa do disco One Cup, One Lighter, One Jack. Encontrava-me física e mentalmente enfraquecido, mas valeu a pena. O disco solo acabou tornando-se a banda instrumental mais irreverente dos últimos tempos. Sim! O Freakeys foi tão bem recebido que instigou a nossa vontade de torná-lo um projeto permanente.

Em 2007, fui eleito o melhor tecladista nacional, segundo pesquisa de opinião pública realizada por todas as principais publicações e sites do gênero. Além disso, participei dos novos trabalhos do Torture Squad e do Total Death. Mas a produção mais importante desse ano foi The Reason Of Your Conviction, o novo álbum do Hangar. Enfim conseguimos terminar o disco de nossas vidas. Começamos a gravar no segundo semestre de 2006 e terminamos em janeiro de 2007, no estúdio Mr. Som. Aliás, nós simplesmente dominamos o estúdio nesse mês. Tínhamos que acabar todas as gravações antes que, novamente, o Aquiles e eu embarcássemos para mais uma turnê com o Angra no Japão e na Europa. Depois dessa turnê, seguimos direto para a Alemanha, onde masterizamos e mixamos o disco com o renomado produtor Tommy Newton. E isso foi surreal! Quando entrei no estúdio do cara e vi os discos de ouro dos Keepers I e II, do Helloween, pensei comigo: “O que é que estou fazendo aqui?!?!” Foram quinze dias de muito aprendizado, dedicação e comoção. Ele simplesmente transformou as nossas músicas em monstros!!! E não me perguntem como. Música (e quem trabalha com ela) é realmente como vinho. O que aprendi com o Tommy nesses quinze dias não tem preço.

Tentar entender o inexplicável é uma espécie de esquizofrenia induzida, o melhor é aceitá-lo. Se quisesse justificar como a minha estrada trouxe-me até onde estou diria que é porque nunca a abandonei. Acredito que as oportunidades não aparecem, mas são criadas. E já que para a expectativa não há nada além de um “NÃO”, por que não tentar? Não deixe de tocar coisas que não queira só por achar que isso irá ferir os seus “princípios”. No final das contas, a merda vai virar esterco.

Chega de papo. Vou curtir a paisagem porque não é sempre que se senta no banco da frente. A gente se vê na próxima parada.


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